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A MÍDIA E O DEBATE SOBRE OS TRANSGÊNICOS


 

Organização

Conselho de Informações sobre Biotecnologia (CIB)

Profissional Responsável

Letícia Lyra

Assessoria Externa

Edelman do Brasil Relações Públicas

Ano da Premiação

2005



Aplicada há mais de 20 anos na medicina, na produção de fármacos e na indústria de higiene, com considerável aceitação pública, a biotecnologia ganhou força no agronegócio e no desenvolvimento de alimentos na metade dos anos 90. Em 1995, os Estados Unidos aprovaram para consumo humano e animal uma variedade de soja geneticamente modificada que, na lavoura, é resistente à determinadas pragas do campo. Estava apenas começando a era dos organismos geneticamente modificados (OGMs), ou os chamados alimentos transgênicos.

De acordo com o International Service for the Acquisition of Agri-Biotech Applications (Isaaa), atualmente existem no mundo nada menos que 81 milhões de hectares de plantações transgênicas – em especial da soja, do milho e do algodão. Já cultivam produtos geneticamente modificados nações como Paraguai, Índia, África do Sul, Uruguai, Austrália, Romênia, México, Espanha e Filipinas. Estima-se que 8,25 milhões de agricultores plantem esse tipo de produto na atualidade.

 

Os cinco maiores produtores de OGMs do planeta são os Estados Unidos, a Argentina, o Canadá, a China e o Brasil. Mas, ao contrário dos outros países, que rapidamente autorizaram pesquisas científicas e desenvolveram rigorosas leis de biossegurança, no Brasil os debates ficaram engessados por manifestações político-ideológicas. O que, por falta de informações confiáveis, levou a sociedade a não entender – ou temer – os transgênicos. Para se ter uma idéia do quanto as indecisões políticas travaram as pesquisas em biotecnologia, basta averiguar que a primeira versão da lei de biossegurança brasileira, escrita há dez anos, ainda não foi regulamentada.

 

Neste cenário conturbado, em 2002, surgiu o CIB (Conselho de Informações sobre Biotecnologia). Trata-se de uma organização não-governamental, cujo objetivo básico é divulgar informações técnico-científicas sobre biotecnologia e seus benefícios, aumentando a familiaridade de todos os setores da sociedade com o tema. Para estabelecer-se como fonte segura de jornalistas, pesquisadores, empresas e instituições interessadas em biotecnologia, o CIB dispõe de um grupo de conselheiros formado por 75 especialistas. São profissionais liberais e cientistas em atividade, ligados à instituições como Universidade de São Paulo (USP), Universidade Federal de Viçosa (UFV/MG), Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Fundação Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz), Instituto do Coração de São Paulo (Incor/SP) e Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).

 

No final de 2002, a Edelman do Brasil assumiu a assessoria de imprensa e relações públicas do CIB, disposta a disseminar informações científicas nacionais e internacionais de um tema tão delicado como os transgênicos. O resultado positivo das estratégias de médio e longo prazo ficou evidente no ano de 2005.

 

Enquanto os movimentos favoráveis aos transgênicos defendiam que a biotecnologia poderia favorecer a produtividade agrícola e combater a fome no mundo, os contrários criticavam a interferência do homem na genética dos organismos e os eventuais riscos desnecessários ao meio ambiente e à saúde humana. Na mistura de idéias, a ciência da transgenia foi confundida com sentimentos como anti-americanismo e anti-globalização, após a chegada de multinacionais do setor no mercado brasileiro. O termo “alimento transgênico” acabou se tornando sinônimo de algo ruim. E a sociedade brasileira, por temê-lo, teve poucas chances de encontrar informações. Por outro lado, contraditoriamente, a população aceitou sem questionamentos o uso da transgenia na produção de insulina humana e hormônios.

Deixar de lado as questões políticas e ideológicas para ater-se unicamente às pesquisas científicas e seus resultados – e desmistificar incorreções tanto de um lado como de outro – passou a ser o maior desafio da Edelman.

 

Objetivos e metas

A Edelman, ao aceitar este desafio, traçou como objetivos elementares: estimular o debate sobre os transgênicos na mídia e na sociedade; corrigir e contrapor incorreções sobre os alimentos geneticamente modificados, disseminadas nos grandes veículos do País, com base em informações científicas; transformar o Conselho de Informações sobre Biotecnologia em fonte de referência para pautas que abordem o tema; e amplificar a visibilidade de pesquisas científicas nacionais e internacionais em biotecnologia.

Estratégias

Consciente da importância do papel que assumiu e da necessidade de promover e estimular um debate público sobre a inserção dos transgênicos na sociedade e a relevância da biotecnologia para o desenvolvimento do País, a Edelman se propôs a:

Realizar workshops e cursos para jornalistas (CIB University) sobre temas ligados à transgenia de alimentos e à biotecnologia de forma geral;

Promover encontros de goodwill entre jornalistas e membros da comunidade científica, em todo o Brasil;

Posicionar os conselheiros do CIB como fonte de informação para a imprensa;

Realizar laboratórios de Mídia Training com os conselheiros do CIB;

Promover visitas de jornalistas aos laboratórios das principais universidades do País, colocando-os em contato com o ambiente e com os processos de pesquisa;

Divulgar pesquisas científicas nacionais e estrangeiras;

Estimular os conselheiros do CIB a produzirem artigos sobre pesquisas e temas científicos de interesse direto da sociedade;

Divulgar os artigos assinados pelos conselheiros do CIB em veículos segmentados e na grande mídia;

Contatar continuamente a imprensa para identificação de novas oportunidades;

Elaborar e oferecer pautas diferenciadas para divulgação;

Acompanhar as mais importantes entrevistas dos conselheiros do CIB, evitando, sempre que possível, a utilização de linguagem muito técnica e a abordagem de temas de menor relevância social e interesse da imprensa.

Execução

Workshops e cursos para jornalistas

Devido à complexidade técnica dos transgênicos e da biotecnologia, a Edelman realizou workshops e cursos, conhecidos como CIB University, para informar, atualizar e esclarecer jornalistas de todo País sobre temas atuais e de grande relevância nacional e internacional. Entre 2003 e 2005, foram realizados cinco workshops e três CIB Universities.

­Encontros de goodwills

Em busca de criar uma via sedimentada na troca de informações e impressões sobre transgênicos e biotecnologia, entre jornalistas e conselheiros do CIB, a Edelman promoveu diversos encontros de goodwill. Ao total foram realizados quase 20 encontros, num período de três anos.

Campus Day

A Edelman entende que colocar jornalistas em contato com os processos e o ambiente de pesquisa científica é elemento importante na difusão correta dos conceitos de transgenia e biotecnologia. Deste modo, promovemos a visita de nove jornalistas setoristas a dois dos principais centros de pesquisas biotecnológicas do Brasil: Cenargen (Centro de Pesquisa da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia) e Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da USP).

Visita às redações

Com editorias enxutas e jornalistas cada vez mais ocupados, a Edelman resolveu levar o CIB para dentro das redações. Por meio de palestras e debates de curta duração, foi atingida a marca de 52 jornalistas com apenas quatro encontros. Os veículos visitados foram: O Globo, Jornal do Commercio (RJ), Correio Braziliense e Rede RBS Gaúcha.

Formação de um porta-voz

Desde sua fundação até 2004, o CIB não se posicionava como entidade, apenas postava-se como um grande banco de informações e fontes sobre transgênicos e biotecnologia. Em 2005, com a ajuda da Edelman, a ONG reformulou sua postura transformando sua secretária-executiva, a cientista Alda Lerayer, também em porta-voz. A mudança amplificou a credibilidade do CIB, estabelecendo-o definitivamente como elo fundamental entre a imprensa e o mundo da transgenia no Brasil.

Contato constante com a imprensa

A exemplo de tantos setores, novas pesquisas, técnicas, conceitos e legislações envolvendo os transgênicos e a biotecnologia apresentam-se de forma volátil e efêmera, exigindo instantaneidade no repasse de informações à imprensa. Assim, a equipe da Edelman exerce um intenso trabalho diário de relacionamento com jornalistas e cientistas, promovendo entrevistas, produção e publicação de artigos, divulgação de novos estudos etc.

Laboratórios de Mídia Training

Compreendendo a responsabilidade dos conselheiros do CIB em enfrentar jornalistas, ansiosos por notícias e esclarecimentos, a Edelman preparou um estruturado laboratório de Mídia Training. Sob orientação de renomados profissionais da imprensa, pesquisadores e cientistas foram preparados para se reportarem aos jornalistas de forma clara, simples e concisa.

Avaliação

A avaliação realizada pela Edelman não foi composta por atividades específicas. Para testar a mudança da percepção dos jornalistas sobre os transgênicos, nossa equipe acompanhou, de forma paulatina, a evolução do nível de conhecimento técnico dos profissionais que geralmente cobriam o tema. Por meio de contatos diários e acompanhamento dos materiais publicados balizamos nosso comportamento e traçamos as diretrizes de nosso projeto. Todos sabíamos que as mudanças no comportamento da imprensa não ocorreriam a curto prazo. Tratava-se de um processo complexo de orientação, informação e atualização.

Resultados

De textos pouco informativos, as reportagens passaram a ter um tom invariavelmente positivo, a favor exclusivamente da ciência, da pesquisa e da biotecnologia. Um dos exemplos mais contundentes é o do jornal O Estado de S.Paulo. Antes do CIB, o diário publicava matérias negativas em relação aos OGMs. Entretanto, em 10 de junho de 2003, publicou em editorial o artigo “Em defesa dos transgênicos”. Em conseqüência de um goodwill com a redação do mesmo jornal, os conselheiros do CIB começaram a assinar uma coluna quinzenal sobre biotecnologia e agronegócio.

Parceria em molde similar acontece hoje com o canal Terra Viva, da Rede Bandeirantes, onde praticamente um conselheiro do CIB, em média uma vez por semana, dá explicações sobre a biotecnologia no agronegócio. O trabalho é fruto de um goodwill da secretária-executiva Alda Lerayer com a produção do programa.


A biotecnologia e os trangênicos também mereceram reportagens especiais na revista Veja (matéria de capa, reportagem de 12 páginas, público leitor estimado em 9,6 milhões de pessoas) e uma série de cinco capítulos no Jornal Nacional da Rede Globo (25 milhões de telespectadores). Os conselheiros do CIB foram as principais fontes.

Os resultados positivos das ações da Edelman na divulgação científica se refletiram também nas mídias do interior do Brasil, justamente onde o agronegócio tem forte atuação. Um dos exemplos é a reportagem “Pesquisa atenta à segurança”, publicada no final de outubro de 2005 pelo jornal O Popular, de Goiânia. Sem contar o estreito relacionamento que o CIB estabeleceu com os canais de comunicação de dezenas de cooperativas agrícolas e associações setoriais.

Além de falar diretamente com os produtores agrícolas, o CIB também passou a ser a fonte de informação do público consumidor. Uma reportagem do jornal Fala Brasil, da Rede Record de Televisão, mostrou para os telespectadores o significado de DNA, durante ação do CIB realizada com consumidores de um grande supermercado da capital paulista. O caderno Folha Equilíbrio, do jornal Folha de S.Paulo, tratou do tema de forma bastante imparcial em duas ocasiões diferentes. Na primeira, publicou a reportagem de capa “O que são alimentos transgênicos”. Na segunda oportunidade, em outubro de 2005, também como matéria principal, a reportagem “Você tem fome de quê?”, fazendo um comparativo dos benefícios, semelhanças e diferenças entre alimentos transgênicos e orgânicos.

Despertar o interesse pela biotecnologia permitiu que o site do CIB saltasse de 250 visitas mensais, no início dos trabalhos, para o expressivo pico de 75 mil visitas em outubro de 2004. O site Biotec pra Galera, com informações sobre biotecnologia para o público, chegou a 10 mil pageviews em julho de 2005.

 

 

Exemplo significativo de que a percepção da sociedade com relação à ciência mudou para melhor está no fato de o CIB ter vencido o Prêmio Jabuti de Literatura 2005, na categoria Ciências Naturais e Ciências da Saúde, com o livro Genômica. A obra consumiu cerca de dois anos de trabalho e inclui pesquisas de 113 autores.

 

Para observação mais concreta das ações do CIB, considerando apenas os últimos 14 meses, temos os seguintes resultados com a imprensa: 44 artigos de conselheiros do CIB publicados; 132 entrevistas concedidas; e 133 reportagens publicadas. Das matérias publicadas em 2005, 86% foram positivas, 11% neutras e 3% negativas.

 

O CIB ganhou a mesma credibilidade de instituições como a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). O reconhecimento veio do Brasil e do exterior. O relatório internacional “The GM Debate – Who Decides?”, do Instituto Panos de Londres (www.panos.org.uk), publicado em maio de 2005, concluiu que a percepção da biotecnologia na imprensa brasileira só melhorou com o trabalho realizado pelo CIB junto à mídia. Jornalistas, produtores rurais e setores da indústria entrevistados pelo Instituto afirmam que, desde a criação do CIB, houve uma mudança “extremamente positiva” na cobertura da imprensa sobre os transgênicos. O Panos é uma instituição independente que avalia assuntos críticos da atualidade em países em desenvolvimento.

 

 


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